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domingo, 29 de novembro de 2009

Brasa

Composição: Gabriel O Pensador/Lenine


Um poeta já falou, vendo o homem e seu caminho:
"o lar do passarinho é o ar, e não o ninho".
E eu voei... Eu passei um tempo fora, eu passei um tempo longe.
Não importa quanto tempo, não importa onde.
Num lugar mais frio, ou mais quente de repente, onde a gente é esquisita, um lugar diferente.
Outra língua, outra cultura, outra moeda.
É, vida dura mas eu sou duro na queda.
Se me derrubar... eu me levanto, e fui aos trancos e barrancos, trampo atrás de trampo, trabalhando pra pagar a pensão e superar a tensão do pesadelo da imigração.
Clandestino, imigrante, maltrapilho.
Mais um subdesenvolvido que escolheu o exílio, procurando a sua chance de fazer algum dinheiro, no primeiro mundo com saudade do terceiro.
Família, amigos, meus velhos, meu mano - o meu pequeno mundo em segundo plano.
Eu forcei alguns sorrisos e algumas amizades.
Passei um tempo mal, morrendo de saudade.
Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade.
Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...
Da beleza poluída, da favela iluminada, do tempero da comida, do som da batucada.
Da cultura, da mistura, da estrutura precária.
Da farofa, do pãozinho e da loucura diária.
Do churrasco de domingo, o rateio e o fiado, a criança ali dormindo, o coroa aposentado.
Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...
Da mulata oferecida, do pagode malfeito, de torcer na arquibancada pro meu time do peito.
A pelada sagrada com a rapaziada, o sorriso desdentado na rodinha de piada.
Da malandragem, da nossa malícia, da batida de limão, da gelada que delícia!
Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...
Do jornal lá na banca, da notícia pra ler, das garotas dos programas da TV.
Do jeitinho, do improviso, da bagunça geral.
Do calor humano, do fundo de quintal.
Do clima, da rima, da festa feita à toa - típica mania de levar tudo na boa - do contato, do mato, do cheiro e da cor.
E do nosso jeito de fazer amor.

Agora eu sou poeta, vendo o homem a caminhar:
o lar do passarinho é o ninho, e não o ar.
E eu voltei. E eu passei um tempo bem, depois do meu retorno.
Eu e minha gente, coração mais quente, refeição no forno.
Água no feijão, tô na área, bichinho.
Se me derrubar... eu não tô mais sozinho.
Tô de volta sim senhor.
Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.
Mas o amor é cego.
Devo admitir, devo e não nego, que aos poucos fui caindo na real, vendo como o Brasa tava em brasa, tava mal.
Vendo a minha terra assim em guerra, o meu país... não dá, não dá pra ser feliz.
E bate uma revolta, e bate uma deprê.
E bate a frustração, e bate o coração pra não morrer.
Mas bate assim cabreiro.
Bate no escuro, sem esperança no futuro, bate o desespero.
Bate inseguro, no terceiro mundo, se for, com saudade do primeiro.
Os velhos, os filhos, os manos - ninguém aqui em casa tem direito a fazer planos.
Eu forcei alguns sorrisos e lágrimas risonhas.
Passei um tempo mal, morrendo de vergonha.
Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha.
Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...
Da beleza poluída, da favela iluminada, da falta de comida pra quem não tem nada.
Da postura, da usura, da tortura diária.
Da cela especial, da estrutura carcerária.
A chacina de domingo, o rateio e o fiado, a criança ali pedindo, o coroa acorrentado.
Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...
Da mulata oferecida, do pagode malfeito.
Morrer na arquibancada pro meu time do peito.
O salário suado que não serve pra nada, o sorriso desdentado na rodinha de piada.
Da malandragem, da nossa milícia, da batida da PM, porrada da polícia.
Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...
Do jornal lá na banca, da notícia pra ler, das garotas de programa dos programas da TV.
Do jeitinho, do improviso, da bagunça geral, do sorriso mentiroso na campanha eleitoral.
Do clima de festa, da festa feita à toa - ridícula mania de levar tudo na boa - do contato, do mato, do cheiro da carniça.
E do nosso, jeito de fazer justiça.
Mas eu vou ficar no Brasa porque o Brasa é minha casa, casa do meu coração.
Mas eu vou ficar no Brasa porque o Brasa é minha casa e a minha casa só precisa de uma boa arrumação.
Muita água e sabão.
Ensaboa, meu irmão.
Não se suja não.
Indignação.
Manifestação.
Mais informação.
Conscientização.
Comunicação.
Com toda razão.
Participação.
No voto e na pressão.
Reivindicação.
Reformulação.
Água e sabão na nossa nação.
Água e sabão, tá na nossa mão.
Tô morrendo de paixão, tô morrendo de paixão...

sábado, 28 de novembro de 2009

Sobre O Belo

video

Sobre o que eu li
tentei sentir o belo nas coisas que eu toquei, cheirei ou digeri
mas o belo não está lá

Só está em curvas de proporção limitada e medidas inventadas
Quando escuto uma bela voz, penso:
Quem compõe o corpo é tão belo quanto o que eu ouço?

O que eu vejo eu creio, porque nasci no meio
O que escuto eu quero ver, porque preciso crer.

Sobre o que eu vi
Tentei rever o fato que parei pra refletir
mas o belo sempre está lá

Nos traços do desenho o desejo
Um laço é o nó que eu almejo
O conceito da beleza é o que eu vejo
E o belo eu não sei onde está.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Espectadores


Projéteis disparados de cima pra baixo
de baixo pra cima
Sempre atingem um corpo terrestre, que é enterrado no chão.
Projéteis disparados entre cumes e cantos,
como?!
Sei não!
Quem está por dentro ou por fora, só olha pro alto, e pede proteção.

E ainda dizemos que vamos pro céu, hein meu irmão?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Garoto




Garoto queria ser piloto, mas virou aviãozinho.
Largou o ensino público primitivo e precário no seu país.
Cansou de ser tratado como bicho, por bichos iguais a ele.
Garoto foi tentar voar mais alto pra deixar de ser infeliz.

Que moleque festeiro! Soltava fogos todo dia!
Quando via um gato preto ou quando chegava mercadoria
ganhou destaque com o chefe por seus olhos de gavião
garoto, guerreiro agora, decolou na profissão
garoto, guerreira agora, decolou de posição

Vai ganhar tutu,
dando tum, tum, tum
Vai ganhar tutu, tum, tum, tum, tum, tum, tum.

Que disposição que esse cria tem! Já é frente do bonde.
Mete a cara contra os “alemão” e dos homi ele não se esconde
No perigo da contenção ele se mantém
Concentrado, com a mira no seu alvo, que pela viela vem.

Em um passado-presente o futuro é esperado
de confrontos sem fim e gatilhos descontrolados
um polígono irregular e um grupo de cada lado
E afinal, quem tá mais certo quem tá mais errado?
Garoto queria ser piloto, mas virou aviãozinho. Garoto morreu voando mas não foi pro céu.

foto: OutNow! Image Gallery
Última Parada 174, Bruno Barreto, 2008